quinta-feira, 6 de dezembro de 2007


O que podia ser belo mas não é, torna-se por si só dono de uma dolorosa beleza nostálgica.
Traz consigo a sombra de outros voos, onde pudessem caber a plenitude e a paixão.
Onde estavas quando passou a mulher do chapéu de sol laranja? Aquela que sabe os segredos mas não conta... ela tem em si a sensualidade do animal adormecido que sorri de prazer.
Dos seus olhos escapam fiapos de singelos gestos de intimidade partilhada.
E em ti, podia ser belo mas não é. São tão altas as paredes preenchidas de movimentos ocultos.
Também tu sabes segredos que não contas, de brilhos impermanentes e brutais.
Tornas-te bela de uma dolorosa e bravia beleza nostálgica.


As crinas da terra são livres, ela parece estar em quietude mas nas suas florestas urgem desejos.
As árvores ouvem o chamamento do mar.
Ele vem até elas sob a forma de um nevoeiro denso, guiado pela lua.
Um nevoeiro silencioso e vivo, que esconde a luz, mas traz em si próprio um cheiro luminoso.
Um nevoeiro que chega e envolve a terra por essas crinas que são árvores e ervas, como uma miragem fugidia.
E o cheiro a mar e a resina confundem-se e trazem de regresso a alma inteira.
Quando um humano assiste a este milagre, a respiração abranda-lhe e os olhos aumentam para suster o tempo e ficar suspenso no abraço da magia.
A floresta está viva e a sua quietude terna e fugidia, apenas nos permite vislumbrar de relance o seu chamamento para acordarmos.
Certas palavras são como as especiarias, devem ser usadas com parcimónia. Por exemplo, esplendor, solte essa palavra numa única página e ela perfumará todo o romance. Mas use-a sem discernimento e então transformar-se-á em ruído.
José Eduardo Agualusa em "Um estranho em Goa"