segunda-feira, 14 de junho de 2010


Hum… que canseira, todo o dia a correr, vira para aqui e para ali. Metro, sub-metro, desmetro. Sempre dois passos à frente da perna.
Ai que vontade de cair aqui, sentada no meio da escada rolante, no último degrau, com a escada a deslizar debaixo de mim, e os viajantes de escada a tropeçarem e caírem voando sobre a minha cabeça. E eu impávida.
Até vir o segurança e me perguntar: - Então minha senhora?
Só que eu desabridamente desolho-o e fixo-me num ponto preto do chão mesmo à frente da minha bota.
- Passou-se – diz um.
E uma reavalhanche de pessoas tropeça e reequilibra-se, olha para traz e chama-me nomes muito feios.
De olhos no ponto do chão sorrio e sinto-me calma. Parei, ok parei, e então?
Não vos apetece parar? Empencar, descansar, enloucar ou bocadinho?
Estou farta de descaso e destempo, de incompreensão e incarícias, de desamor e desatentos transeuntes.
E quando desolho o meu amado ponto preto e olho à volta, encontro estupefacta dezenas e dezenas de figuras sentadas no chão à minha volta. Uns sentados, outros deitados, alguns encostados uns aos outros. Sorriem-me e fazem acenos com a cabeça. Uma senhora loura lá ao fundo acena-me com a mão. Alguém trouxe um piquenique e distribui copos de papel e sumo bio-maçã.
Algumas pessoas poliabraçam-se e cantam “It’s a wonderfull world” e à esquerda, um par incongruente: um senhor de fato e cabelo curto, joga à sardinha com uma teen-ager gótica com um piercing no sobrolho.
E de repente, alguém me passa a mão pelo cabelo e me abraça pelas costas, e não é um desabraço, é mesmo um abraço.
A polícia tenta chegar para repor a circulação mas é impossível.
Há pessoas sentadas na passadeira da Rua do Ouro interrompendo o trânsito. Todos conversam e sorriem. Os polícias desistem e também se sentam.
- Um copo de sumo sr. Guarda?

domingo, 13 de junho de 2010


Caramba, que para cair no vício é melhor cair verticalmente, sem apelo nem agravo, mostrando os dentes brancos na queda num sorriso galante.
Ai, rasga os livros e parte todos os discos da estante, o que importa o que disseram e fizeram aqueles que não voaram contigo?
De pés juntos para o precipício, num sorriso vitorioso de quem já fez o que tem a fazer e quem vier atrás que feche a porta.
Ai que raiva dos que ficam pendurados na borda a vacilar:- Caio, não caio?
Até na bíblia Deus diz:- Por não seres quente nem frio te cuspo.
Ai de gente morna está o inferno cheio. Gente que vacila e hesita na iminência da morte como hesitou na iminência da vida.
Ai que o risco de viver cala tão fundo que ficamos suspensos de ansiedade e achaques sobre os penhascos verdejantes das vidas.
Abre as asas e salta!
Deste salto não há volta! Ai que alívio….








Que imenso e mágico o “lá fora”, vai mais longe que a minha imaginação…a todo o momento a melancolia enternecedora da beleza imprevista.


- O que faço eu aqui? Quem és tu?


- Estou vivo! Também queres?


Estou vivo porque o verde de todas as cores me acordou e sei exactamente para onde vou.


Sou guiada por uma estrela que brilha no meu centro.


O fogo eleva-me nos ares!


Quem são aqueles fantasmas brancos sobre a neve? Não sabem que a alma migrou para sul? Pousou num ninho no meio do mar. Quem lhes dera lá chegar.


Estou vivo, também queres?


Tantas almas por metro quadrado! Ainda bem que há o céu para olhar e o azul é imune ao cinzento.


Que faço eu aqui? Quem és tu?


Sou a luz, trago o prazer do proibido sem culpa, a pele escorregadia está viva!


Também queres? A minha alma aninhou-se num mar dentro de mim.