
Hum… que canseira, todo o dia a correr, vira para aqui e para ali. Metro, sub-metro, desmetro. Sempre dois passos à frente da perna.
Ai que vontade de cair aqui, sentada no meio da escada rolante, no último degrau, com a escada a deslizar debaixo de mim, e os viajantes de escada a tropeçarem e caírem voando sobre a minha cabeça. E eu impávida.
Até vir o segurança e me perguntar: - Então minha senhora?
Só que eu desabridamente desolho-o e fixo-me num ponto preto do chão mesmo à frente da minha bota.
- Passou-se – diz um.
E uma reavalhanche de pessoas tropeça e reequilibra-se, olha para traz e chama-me nomes muito feios.
De olhos no ponto do chão sorrio e sinto-me calma. Parei, ok parei, e então?
Não vos apetece parar? Empencar, descansar, enloucar ou bocadinho?
Estou farta de descaso e destempo, de incompreensão e incarícias, de desamor e desatentos transeuntes.
E quando desolho o meu amado ponto preto e olho à volta, encontro estupefacta dezenas e dezenas de figuras sentadas no chão à minha volta. Uns sentados, outros deitados, alguns encostados uns aos outros. Sorriem-me e fazem acenos com a cabeça. Uma senhora loura lá ao fundo acena-me com a mão. Alguém trouxe um piquenique e distribui copos de papel e sumo bio-maçã.
Algumas pessoas poliabraçam-se e cantam “It’s a wonderfull world” e à esquerda, um par incongruente: um senhor de fato e cabelo curto, joga à sardinha com uma teen-ager gótica com um piercing no sobrolho.
E de repente, alguém me passa a mão pelo cabelo e me abraça pelas costas, e não é um desabraço, é mesmo um abraço.
A polícia tenta chegar para repor a circulação mas é impossível.
Há pessoas sentadas na passadeira da Rua do Ouro interrompendo o trânsito. Todos conversam e sorriem. Os polícias desistem e também se sentam.
- Um copo de sumo sr. Guarda?

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